Cristo não se comportava nem como herói nem como anti-herói. Sua inteligência era ímpar. Seus comportamentos fugiam aos padrões do intelecto humano. Quando todos esperavam que falasse, ele silenciava. Quando todos esperavam que tirasse proveito dos atos sobrenaturais que praticava, pedia às pessoas ajudadas por ele que não contassem a ninguém o que havia feito. Evitava qualquer tipo de ostentação. Que autor poderia imaginar um personagem tão intrigante como esse?
O mundo dobrou-se aos seus pés, não pela inteligência dos autores dos quatros evangelhos, pois neles não se percebe a intenção de produzir um texto com grande estilo literário. O mundo o reverenciou porque seus pensamentos e atitudes eram tão eloqüentes que falavam por si mesmos, não precisavam de arranjos literários por parte dos seus biógrafos.
O que chama atenção nas biografias de Cristo são seus comportamentos incomuns, seus gestos que extrapolam os conceitos, sua capacidade de considerar a dor de cada ser humano mesmo diante da sua própria dor. As reações de Cristo realmente contrapõem-se aos nossos conceitos. Vejamos sua entrada triunfal em Jerusalém.
Após ter percorrido por um longo período toda a região da Galiléia, inúmeras pessoas passaram a segui-lo. Agora, havia chegado o momento de entrar pela segunda e última vez em Jerusalém, o grande centro religioso e político de Israel. Naquele momento, Cristo estava no auge da sua popularidade. As pessoas eufóricas o proclamavam como rei de Israel (Marcos 11:10). Alguns discípulos, que aquela altura ainda não estavam cientes do seu desejo, até disputavam quem seriam maior se ele conquistasse o trono político (Marcos 10:35-37). Os discípulos e as multidões estavam extasiados. Entretanto, mais uma vez ele adotou uma atitude imprevisível que chocou a todos.
Quando esperavam que ele entrasse triunfalmente em Jerusalém, com pompa, seguido de uma grande comitiva, Cristo assumiu uma atitude clara e eloqüente que demonstrava sua rejeição a qualquer tipo de poder político, ostentação e estética exterior. Ele mandou alguns dos seus discípulos pegarem um pequeno animal, um jumentinho, e teve a coragem de montar no desajeitado animal. Foi assim que aquele homem superadmirado entrou em Jerusalém.
Nada é mais cômico e desproporcional do que o balanço de um homem transportado por um jumento. O animal é forte, mas é pequeno. Quem monta não sabe onde colocar os pés, se os levanta ou arrasta pelo chão.
Que cena impressionante! Porém, as pessoas, confusas e ao mesmo tempo admiradas, colocavam suas vestes sobre o chão para ele passar e o exaltavam como o rei de Israel. Elas queriam proclamá-lo um grande rei e ele demonstrava que não desejava nenhum poder político. Queriam exaltá-lo, mas ele expressava que, para atingir seus objetivos, o caminho era a humildade, a necessidade de aprender a interiorizar-se. Cristo propunha uma revolução que se iniciava no interior do ser humano, no íntimo do seu ser, e não no exterior, na estética política. É impressionante, mas ele não se mostrava nem um pouco preocupado, como geralmente ficamos, com a aparência, o poder, o status social, a opinião pública.
Uma pessoa, no auge da sua popularidade, explode de orgulho e modifica o padrão das suas reações. Algumas, ainda que humildes e humanistas, ao subir um pequeno degrau da fama, passam a olhar o mundo de cima para baixo e colocam, ainda que inconscientemente, acima dos seus pares.
Cristo estava no ápice do seu sucesso social, mas, ao invés de se colocar acima dos outros, desceu todos os degraus da simplicidade e do despojamento e deixou todos perplexos com sua atitude. Se caminhasse, seria mais digno e menos chocante. Porém, ele preferiu subir num pequeno animal para estilhaçar os paradigmas das pessoas que o contemplavam e abrir as janelas das suas mentes para outras possibilidades.
A personalidade de Cristo foge aos parâmetros da imaginação. Sua inteligência flutuava entre os extremos. Em alguns momentos expressava uma grande eloqüência, coerência intelectual e segurança e, em outros, dava um salto qualitativo e exprimia o máximo de singeleza, resignação e humildade.
Quem, no auge do sucesso, conserva suas raízes mais íntimas? Muitos depois de alcançar qualquer tipo de sucesso, perdem, ainda que inconsciente e involuntariamente, não apenas as suas raízes históricas, mas também a capacidade de contemplar pequenos eventos da rotina diária.
Será que alguns personagens da literatura mundial aproximaram-se da personalidade de Jesus Cristo? Desde que Gutemberg inventou as técnicas gráficas modernas, dezenas de milhares de autores criaram milhões de personagens na literatura. Será que algum desses personagens teve personalidade com as características de Jesus? Eis um bom desafio de investigação! Realmente creio que não. As características de Cristo fogem ao padrão do espetáculo da inteligência e da criatividade humanas.
No passado, Cristo é para mim fruto da cultura e da religiosidade humanas. Porém, após anos de estudos, convenci-me de que não estou estudando a inteligência de uma pessoa fictícia, imaginária, mas de alguém real, que andou e respirou aqui na terra. É possível rejeita-lo, mas se investigarmos as suas biografias não há como negar sua existência e reconhecer sua perturbadora personalidade. A personalidade de Cristo é “inconstrutível” pela imaginação humana.
Vem mais por aí em: Jesus Cristo: um personagem real ou imaginário? (Final)
Um abraço.
Kleber Ramírez
Dezembro 6, 2008 às 2:23 pm
Caro Kibom33:
Como você sumiu do meu blog, resolvi visitá-lo em seu território, comentando este artigo, que me fascina.
Para minha surpresa, noto-o, aqui, um pouco diferente das suas passagens pelo meu blog, parecendo-me (estaria eu enganado?), bastante em dúvida quanto à real existência de Cristo.
De fato, o assunto é intrigante e apaixonante e temos de fazer muita força para não nos deixarmos seduzir. Ainda não li a sua conclusão final (vou ler), mas posso adiantar que é possível, sim, conceber um personagem com os mesmos atributos de Cristo, ou até mais. Os vôos da mente humana são infinitos. Por isso, quando um autor criar um super-herói de histórias em quadrinhos, com vários superpoderes, ele nos fascina; por isso, os personagens míticos nos fascinam. E um mito pode ser criado em cima de nada, apenas partindo da imaginação de quem o criou e daqueles que acrescentaram algumas qualidades ao personagem. Mas um mito também pode ser criado com base em um ser real. Basta que se lhe atribuam várias qualidades que ele não possui e deixe o povo, no boca-a-boca, criar e aperfeiçoar o mito.
O nome Jesus, nas suas variadas formmas em dialetos aramaicos e outros da época, era um nome tão comum como João ou José, hoje. À época em que Cristo teria vivido, a crucificação também era uma penalidade bastante comum. Grupos de fanáticos querendo encontrar alguém que encarnasse o Jesus mitológico, eram muitos; candidatos ao papel, também eram muitos. Logo, fabricar um mito derivado e atribuir-lhe proezas impossíveis ao mortal comum, não seria assim tão difícil.
Mas, enfim, tudo são “hipóteses” neste terreno e quem sou eu para achar que possa aproximar-me um pouco mais da verdade, por mais que leia, pesquise e estude? Para mim, esta verdade absoluta ainda está por ser descoberta.
Mudando de assunto, quero colaborar com você, com algo que aprendi recentemente: segmentar em várias paginas um post grande. Visite o meu blog “Debata, Desvende e Divlgue!, no artigo “MITOS, VERDADES E MENTIRAS SOBRE OS ATEUS”(é o mais recente) e veja que o post foi segmentado em 4 páginas. Vi que este seu artigo é longo, composto por 3 ou 4 posts isolados, sendo um continuação do outro. Se tiver interesse em aprender a fazer um post multi-páginas , avise-me e eu escrevo um pequeno tutorial. Grau de dificuldade? Entre pequeno e médio.
Abraços!